Da Vocação ao Estado Sacerdotal (part.II)



Para cada um que quer assumir a dignidade do sacerdócio é de todo necessária uma vocação especial de Deus. Isso explica S. Paulo, citando o exemplo do sumo sacerdote Aarão e do divino Salvador Jesus Cristo: “E ninguém se usurpa esta honra, mas só aquele que é chamado por Deus como Aarão”. Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo para se fazer pontífice? Mas Aquele que lhe disse: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Hb 5,4-5).


Logo, ninguém, por mais santo e sábio que seja, se deve intrometer no santuário; o sacerdote deve ser chamado por Deus e por Ele aí introduzido. Nosso Senhor mesmo escolhe os trabalhadores que devem cultivar a sua vinha: “Eu vos elegi e encarreguei-vos que vades e deis fruto” (Jo 15,16). Por esse motivo o divino Salvador não disse: “Pedi aos homens que recolham o trigo”, mas: “Pedi ao Senhor da colheita que envie operários à sua seara” (Mt 9.38). Em outro lugar diz: “Como o Pai me enviou, eu vos envio”.


Se Deus, porém, nos chama a qualquer cargo, concede também o auxílio necessário para ele. “O autor da honra a mim conferida será meu auxiliador no desempenho dela”, diz S. Leão, porque quem concedeu a dignidade dará também a força” (In die ass. Suae s. 1). O divino Salvador exprime o mesmo pensamento, quando diz: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, será salvo; ele entrará e sairá e encontrará pastagens” (Jo 10,9). Ele entrará, isto é, tudo o que empreende um sacerdote chamado por Deus, executará sem pecado e até com merecimento; e sairá, isto é; se achará no meio de ocasiões perigosas, mas, com o auxílio de Deus, sairá vitorioso disso tudo; ele achará pastagens, isto é, receberá graças especiais no exercício de seu cargo, em virtude das quais fará grandes progressos no caminho da perfeição e justamente por estar ele no estado a quem foi chamado por Deus, pode exclamar, confiadamente: “O Senhor me governa e nada me faltará; colocou-me em um lugar de pastos” (Sl 22,1).


Quais são, porém, os sinais mais seguros de vocação sacerdotal? São principalmente estes:


A) A pura intenção. No santuário, só pela porta se deve entrar e esta porta é Jesus Cristo. Ele mesmo disse: “Eu sou a porta... quem entrar por mim, será salvo”. A legítima entrada para o santuário não é, pois, o desejo de agradar aos pais, de elevar sua família, de se procurar vantagens temporais, ou satisfazer ao amor-próprio, mas sim a pura intenção de servir a Deus e trabalhar para sua glória, na salvação das almas;
B) A ciência requerida e os dotes necessários para poder exercer devidamente as funções sacerdotais;
C) Conduta irrepreensível de vida. Quem aspira a honra de servir ao altar, não só deve estar livre de pecados, mas ser realmente piedoso, isto é, já deve trilhar o caminho da perfeição e possuir uma certa presteza no exercício da virtude.

Esta especial piedade é requerida por dois motivos, segundo S. Tomás (Suppl. Q. 35, a. 1): primeiro, porque quem recebe as santas ordens, por sua santidade, deve estar tão acima do povo quanto por sua dignidade e sobrepuja; segundo, porque ele recebe, pelas santas ordens, o encargo de administrar os mais sublimes mistérios, o qual requer uma perfeição ainda maior do que a do próprio estado religioso.


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