Da vocação em geral (parte I)



Deus quer que todos os homens se salvem; mas Ele não quer que todos atinjam esse fim pelo mesmo caminho. Como Ele estabeleceu no Céu diversos graus de glória; assim também instituiu na terra diversos estados de vida, que são outros tantos caminhos para o Céu. Para nos consagrarmos, porém, a qualquer estado, devemos, necessariamente, ser chamados por Deus a Ele, pois, em caso contrário, é-nos impossível ou, ao menos, muito difícil cumprir com os deveres desse estado e operar a nossa salvação. A razão disso é evidente, pois é Deus mesmo que, segundo sua sábia ordenação, destina cada um para um estado e lhe concede os auxílios e graças próprias a esse estado.

Se quisermos, portanto, assegurar a nossa salvação, devemos escolher aquele estado para o qual Deus nos chamou, porque só nele encontramos os auxílios eficazes para atingir o nosso fim, pois a virtude do Espírito Santo nos é concedida segundo a ordenação da divina Providência e não segundo a nossa vontade, diz S. Cipriano (De sing. Cler.). “Cada um tem seu próprio dom de Deus”, escreve S. Paulo (1Cor 7,7), o que significa, segundo Cornélio a Lápide, que Deus concede a cada um sua vocação e o escolhe para o estado no qual o quer salvar. Concorda com isso o que ele aos romanos (Rm 8,30), dizendo que Deus chama os homens conforme Ele os predestinou; se seguem sua vocação, Ele os santifica com sua graça e os conduz finalmente à eterna glória.

Geralmente, a importância da sua vocação não é dignamente apreciada. Considera-se como uma coisa indiferente viver no estado que Deus chamou ou em outro de livre escolha. Daí provém que tantos homens levam uma vida má e perdem-se finalmente. É indubitável que nossa salvação eterna depende, na maior parte, na escolha de estado. À vocação se prende a justificação, à justificação, porém, a glorificação, isto é, á vida eterna, nota o Apóstolo (Rm 8,30).

Quem destrói essa ordem, quem rompe essa cadeia de salvação, não se salvará. Por maiores esforços que faça, por mais meios que se empregue, será sempre verdade o que diz S. Agostinho (inpse 31-4): “Corres bem, mas fora do caminho”, isto é, a fora do caminho que Deus te apontou para que, por ele, chegues á bem-aventurança eterna. Nosso Senhor não aceita aqueles sacrifícios que lhes oferecemos inspirados por nosso amor-próprio: chega até ameaçar com terríveis castigos aqueles que desprezam seus conselhos e seguem sua inclinação: “Aí de vós, filhos desertores”, diz o Senhor, que fizestes vossos planos, mas sem mim, e urdistes uma teia, mas não pelo meu espírito” (Is 30,1).

Na escolha do estado, pois só a vontade de Deus deve ser consultada e não nossa própria vontade ou a vontade de nossos pais. Segundo S. Tomás (II-II. q. 104, a. 5), é certo que na escolha de estado NÃO estamos obrigados a obedecer nossos pais. Quando, por exemplo, um jovem se sente chamado para a vida claustral, e os pais se opões a isso, deve ele antepor a vontade de Deus à vontade de seus pais, que, muitas vezes, por egoísmo e razões pessoais, se opõe ao bem espiritual de seus filhos, diz S. Tomás.


“Os pais preferem que seus filhos se percam eternamente com eles, a que se salvem separados deles”, é palavra de S. Bernado (Ep,111).

Existem pais e mães que levam, aliás, uma vida temente a Deus, mas que cegos pela paixão, não há meio que não empreguem para demover seus filhos de entrar no estado religioso. Um tal procedimento, entretanto, com poucas exceções, não pode ser escusado de pecado mortal. É verdade que se objeta: então é só no estado religioso que se poderá salvar-se? Perderam-se então todos os que vivem no mundo? Respondo: os que não são chamados ao estado religioso, operam no mundo sua salvação, se cumprirem com as obrigações de seu estado; os que, porém, são chamados ao estado religioso e não seguem a voz de Deus, podem, afinal, se salvar, mas só com grandes esforços, porque se privaram da assistência especial a eles destinada no estado religioso. “Quem não segue sua vocação”, diz Habert,é na Igreja como um membro deslocado, e só com grande esforço poderá cumprir com seus deveres e salvar-se”.

Luís de Granada compara a vocação com a roda principal de um relógio. Assim como todas as outras rodas ficam impedidas na sua rotação se essa roda estiver estragada, do mesmo modo toda nossa vida fica desordenada a respeito de nossa salvação eterna, se desacertarmos nossa vocação. Quantos desgraçados jovens que, por amor de seus pais, não seguiram sua vocação, tiveram um mau fim e lançaram na perdição não só a si mesmos, mas toda a sua família.

Se queres então fazer uma boa escolha de estado, alma cristã, aconselho-te á passar, enquanto possível, alguns dias na solidão para refletir, diante de Deus, sobre esse importante negócio.

Deves, então, observar o seguinte:

1) Todo o teu empenho deve ser conhecer o que Deus deseja de ti. Para isso deves dizer muitas vezes contigo mesma: “Ouvirei o que o Senhor me disser” (Sl 84,9) e o que de mim exige;
2) Deves estar resolvida a obedecer a Deus e a seguir sem restrição a vocação que Ele te fizer conhecer como a tua;
3) Deves suplicar incessantemente ao Senhor que te faça conhecer sua santa vontade, qualquer que seja o estado a que te chame. Ao mesmo tempo que deves cuidar em conservar uma santa indiferença a respeito das determinações divinas.

Quem pede a Deus luzes para a escolha de estado sem achar nessa disposição de santa indiferença; quem, em vez de se conformar com a vontade divina, quer até impor a Deus como norma sua própria vontade, assemelha-se a um piloto que parecer querer atravessar o mar com seu navio, quando, na realidade, não o quer, visto ter antes descido a âncora e, depois, desfraldado as velas.


Quem alimenta tais sentimentos, não receberá as luzes e inspirações divinas. Se, pelo contrário, pedires a Deus luzes com santa indiferença e com firme resolução de seguir o chamamento de Deus, representa-te no instante de tua morte, e faze então a escolha que desejarias ter feito nesse momento decisivo.


LEIA:

Da Vocação ao Estado Sacerdotal (part.II)

Da Vocação ao Estado Religioso (part.III)


Do livro Escola da Perfeição Cristã, Santo Afonso Maria de Ligório.

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